segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

um pouco sobre despedidas

A vida é mesmo imprevisível, uma sucessão de surpresas...
Umas boas, outras nem tanto.
E assim é.
Só nos resta a adaptação constante
ás novas realidades que vão se apresentando.
Eu me transformo.
Sinto de maneira quase sólida as transformações em mim.
Pouco a pouco alguns espaços vão sendo preenchidos,
algumas coisas perdem o sentido,
enquanto outras que sempre estiveram ali
de repente se tornam novas.
Tudo bem.

Ouço a música do vento nas árvores,
o namoro de meio dia das estaladeiras,
a risada do filho,
Laura ciscando as folhas secas,
o canto dos pássaros,
todos os sons...
Tudo é música agora.
Engraçado isso, a música de tudo ao meu redor.
Acalma e alegra, me distancia da loucura do mundo lá fora.
E entristece também, porque não sei quando vou ouvir
essa música outra vez.

Olho para a varanda sem grades, e volto no tempo...
A última vez em que a vi assim foi há 20 anos.
Agora a minha infância e a do filho se confundem.
Ele brinca diante dos meus olhos
e quase posso ver a mim mesma
correndo por onde hoje ele corre,
um outro tempo, outra vida.
O mesmo quintal.
Vou me despedindo lentamente desse quintal,
enquanto me vem a certeza
de que por mais que eu saia daqui,
o lugar nunca sairá de mim.
Coisa estranha essa saudade
que já dói antes mesmo da partida.
Quintal de sonhos, a Praça dos amores, o verde,
essa vida toda pulsando ao redor...
A vida toda passando como num filme.
Quero agarrar com as mãos esse instante fugaz
onde sinto tão forte a energia,
a presença dos antepassados que construíram esse lugar
que agora vai sendo aos poucos desconstruído.
A mim, resta a alegria de ter vivido aqui,
o conforto da memória.
O aprendizado de que tudo é finito,
por mais que a gente queira acreditar no contrário,
e que as coisas de mais valor
não podem ser tocadas e sim sentidas.
E que mesmo que doa esse sentir, tudo valeu a pena.
Um ciclo que se encerra precisa ser bem encerrado
para que o próximo seja melhor.

Então, apesar de saber do falso valor das coisas materiais,
cato no chão um caquinho de pastilha
que se soltou da parede
e quero levar esse caco comigo pro resto da vida.
Respiro fundo e o cheiro do jasmim
enche os pulmões e o coração.
Uma borboleta passa,
cai uma folhinha no chão.
Puro amor.
No pensamento, só as palavras do poeta:
"...e a vontade de chorar que vinha de todas as coisas..."





Rua Joaquim Bastos, n° 595, Bairro de Fátima
Fortaleza, CE, Brasil

Em 05/01/2009.

2 comentários:

o vazio disse...

afe já acordei emotiva, tepeêmica e chorosa. Chorei alto guinchando feito um macaco novo que sou e a dona Conceiça veio aqui me abraçar... "é assim mesmo minha fia, a gente num pode fazer nada..." e o que fica é nossa transformação.

ela disse...

que bonito isso tudo.
por favor nunca deixa de redigir as linhas do caderno.
beso.